quarta-feira, 24 de junho de 2020

Guerra dos sexos no trânsito

Buscar explicações para desvendar as diferenças entre homens e mulheres é interesse de estudo há muito tempo e se torna sempre um assunto polêmico mesmo em tom de brincadeira nos grupos de amigos. Mas essa provocação desperta uma questão interessante, a de medir forças, estabelecer diferenças, qualidades e defeitos. As grandes transformações ocorridas na sociedade nas últimas décadas culminaram, dentre outras mudanças, na entrada da mulher no ambiente do trânsito e em uma participação mais ativa, então essa mudança provoca uma competição entre os gêneros.

É claro que existe diferenças biológicas que a própria natureza desenvolveu com o ensejo de preservação, sobrevivência e a utilização dessas distinções é que nos tornam diferentes. Longe de instigar as provocações, apenas fisicamente falando, o padrão de conexão entre os neurônios dentro do cérebro é diferente entre os dois gêneros. Os homens têm mais conexões dentro de cada hemisfério cerebral e menos conexões entre os dois lados do cerebelo, estrutura responsável principalmente pela coordenação motora. Já nas mulheres o padrão é o contrário, isso explica porque homens e mulheres têm a mesma inteligência em potencial, mas habilidades diferentes e essas aptidões ficam muito visíveis no trânsito.

Com a evolução da tecnologia essa necessidade de reforçar as diferenças foram se adaptando e muitas atitudes têm se abrandado com o desenvolvimento da sociedade e descaracterizando um pouco os papéis tradicionais e deterministas masculino e feminino. Entretanto, algumas características permanecem fortes devido às diferenças biológicas, como exposição aos hormônios, que influenciam no emocional e isso pode interferir no momento de reagir aos estímulos externos e refletir na forma de conduzir um veículo.

Dentro dessa construção psicossocial, cultural e histórica construída ao longo do desenvolvimento, as crenças e atitudes das mulheres e homens sobre o comportamento começa a ter uma dimensão mais ampla desde os tempos primitivos e essas habilidades foram ganhando definições que reverbera até hoje. Homens se especializaram em caça, agressão e defesa enquanto as mulheres se especializaram em cuidados da prole e coleta de fontes alimentares, isso de uma forma mais abrangente. Por essa razão, o cérebro dos homens teve que desenvolver mais em habilidades visuais e espaciais necessárias ao sucesso da caça. O cérebro das mulheres se desenvolveu mais na localização de objetos no ambiente imediato, interação verbal mais fluente e maiores habilidades sociais e afetivas. Nesse aspecto fica perceptível no momento do processo da aquisição da primeira habilitação, mulheres tem mais dificuldade em realizar a baliza, por causa da visão espacial.

Tudo no trânsito é relativo e nada é determinado, homens e mulheres podem ter diferenças na composição biológica. Entretanto, atualmente esse parâmetro mudou muito e dependendo da vontade, dedicação, estudos e treino essas funções poderão ser exercidas por qualquer sexo. No volante não é diferente, hoje é muito difícil identificar o condutor pelo sexo quando se está em um veículo com película escura, por exemplo, o que existe são condutores responsáveis, hábeis, de uma dinâmica muito assertiva no trânsito, como existem o contrário, mas isso não é determinado pelo sexo e sim pela educação, moralidade e responsabilidade. Existem formas comportamentais perceptíveis na maneira de conduzir um veículo, mas isso não estabelece que um seja melhor que o outro, são apenas habilidades diferentes.

Como se pode perceber, a história acerca das diferenças entre os sexos é repleta de interpretações errôneas, conclusões injustas, perspectivas de confiança entre outras barreiras sociais e nunca se chegou a um resultado de quem é melhor no trânsito. Fica claro que a diferença entre homem e mulher está concentrada em uma questão cultural, brigas de vaidades, confirmações de poder, complexos de inferioridade e tudo que envolve o comportamento humano. Nossa identidade no trânsito é de condutor que conduz vidas com responsabilidade nessa complexa realidade, independente do sexo.

MELISA PEREIRA - Psicóloga com formação clínica e especializações em Psicologia Organizacional com ênfase em avaliação psicológica e em Psicologia do Trânsito. Professora nos cursos de formação de Agentes de Trânsito, Instrutores e Diretores de CFC.

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