segunda-feira, 6 de abril de 2020

Tragédia ou fatalidade?

Hoje estava lendo sobre os eventos trágicos que acometeram a família Kennedy, nos Estados Unidos. Uma parte da imprensa, mais sensacionalista, sugere uma maldição sobre a família, que ao longo da história enfrentou muitos dissabores e algumas tragédias. Outros, contrariando a tese, referem-se à maldição como termo inapropriado para definir o que, muitas vezes, foi resultado da conduta dos próprios Kennedy.

Lembrei-me do episódio dos acidentes de trânsito em que se envolveu o cantor piauiense Paulynho Paixão, e que ocasionaram a sua morte.

Alguns comentaram que era "a hora do cantor", que não dá pra escapar dos desígnios da morte (ao estilo do blockbuster "Premonição"). Mas, será isso mesmo? O que é fatalidade em matéria de acidentes de trânsito?

Um dos conceitos de fatalidade é: aquilo que não pode ser evitado. Um outro conceito, que todo o candidato à habilitação aprende no curso teórico de formação de condutores, é o de condição adversa, que é um obstáculo à condução e que, portanto, deve ser evitada. Uma das condições adversas mais severas é a do condutor - quando física ou emocionalmente ele apresenta redução ou impossibilidade da sua capacidade de praticar a direção defensiva.

Então, fatalidade, em acidentes de trânsito, não pode estar associada àquilo que poderia ser evitado pelo condutor, em tese.

Esse hábito, aliás, que temos em dizer que, no trânsito, os eventos determinados como acidentes sejam fatalidades, desculpa os motoristas que concorrem ativamente, com condutas muitas vezes criminosas, para a elevação das estatísticas perversas de morte, lesão corporal e numero de sequelados no país.

Naquele dia fatídico, o cantor Paulynho Paixão já havia sofrido um acidente; não posso afirmar sobre todas as circunstâncias, mas capotou o seu veículo. Pergunto-me, contudo, se uma vítima de acidente de trânsito, como esse em que ele se envolveu, tem condições de pilotar uma motocicleta, logo em seguida, como foi o caso.

Ao meu ver, sofrer um acidente de trânsito provoca uma condição adversa física e emocional, que o zelo e responsabilidade para consigo e para com outrem impõem cuidados médicos e repouso.

Lamento pelo que houve e respeito os sentimentos da família; não gostaria de afirmar que a vítima tenha sido a responsável, afinal de contas, há perícia destinada a isso.

Quanto à sociedade, entretanto, sobretudo quanto aqueles que operam diretamente sobre o trânsito, creio que é necessária atenção ao reputar como "fatalidade" aquilo que é resultado direto da ação humana. É um primeiro passo para vindicar o protagonismo que cada um exerce para a manutenção da segurança no trânsito.

FILIPE MARTINS - Assistente de Trânsito do Departamento Estadual de Trânsito do Maranhão desde 2014. Estudante de Direito e Administração, já participou de Congressos e Seminários na área de legislação de trânsito com produção científica. Atuou nas Comissões de Análise de defesa Prévia do DETRAN-MA e hoje está lotado na Coordenação de RENAINF do mesmo órgão.

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