quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

O Profano e o Sagrado no trânsito

Porque temos vício de violar as regras de conduta mesmo sabendo que elas existem para a nossa segurança e o bom funcionamento da sociedade?  A partir desse questionamento podemos ir aos conceitos de sagrado e profano, e veremos que no dia a dia do trânsito essas definições se revelam todo momento. Seguindo o conceito original, ser profano “é violar as regras sagradas, é fazer uso abusivo de práticas impuras e indignas” e o sagrado é “respeitar ritos ou cultos e regras”, de modo que observamos sempre as ações de respeitar ou violar as regras em nossa sociedade.

Se formos em busca de algumas leis já existentes na história da humanidade, nos deparamos com várias, inclusive com algumas conhecidas, por exemplo o Código de Hamurabi e a Lei Mosáica, que foram instituídas para conter sociedades necessitadas de controle, nas suas respectivas épocas.  O código de Hamurabi foi elaborado por um antigo monarca da Babilônia (inclusive o código tem seu nome) e se tornou o sexto rei da dinastia babilônica. Esse código era composto de 281 leis, que apresentavam punições ao não comprimento das regras estabelecidas, Lei do Talião (conceito jurídico da época, Olho por Olho, Dente por Dente). Outro grande exemplo que podemos destacar são as Leis ditas por Moisés, os Dez Mandamentos, descrito na Bíblia, e que não se restringiu só a elas. A Lei Mosaica apresenta um Código formado por 613 disposições, ordens e proibições, chamada Torá.  Esses exemplos só mostram que não é de hoje que as sociedades precisam ser regidas por normas e condutas de comportamentos para que exista um equilíbrio na sua dinâmica.

Voltando o olhar para a atualidade, especificamente para Brasil, iremos nos reter ao comportamento no trânsito e tendo como norteador o Código Trânsito Brasileiro (CTB). Constantemente observamos irregularidades acontecerem no trânsito e sabemos que as leis existem para que as relações sociais no trânsito funcionem sem prejuízo a população, desde que foi instituído com o intuito de diminuir os problemas e organizar esse sistema complexo.

Porque insistimos em violar as regras? Freud já fez questionamentos e reflexões sobre o assunto, e destaca que a proibição está intimamente ligada ao desejo de cometê-lo. Ele fala dessa questão de estabelecer regras desde os primórdios da civilização no seu livro Totem e Tabu. E o significado de tabu se refere a uma proibição da prática de qualquer atividade social que seja moral, religiosa ou culturalmente reprovável. Cada sociedade possui os seus próprios padrões morais. Totem significa o símbolo sagrado adotado como representação por sociedades, repassados por seus ancestrais e protetores que representam as regras. E fala, que para existir o equilíbrio de uma sociedade é necessário instituir normas e valores e assim começaria a moldar a nossa psique, estrutura comportamental, entre os limites do certo e errado. Cabe aqui ressaltar que, Freud, no livro, busca uma relação entre a vida psíquica dos primitivos e dos neuróticos (quadro que apresenta dificuldade de adaptação), onde este último é confrontado com o desejo de transgredir um tabu original, vemos isso muito evidente nos comportamentos modernos. E essa busca de transgredir, fará o que Freud chama de "deslocamento de tabu" para um outro objeto, aqui revertido ao trânsito, seus desejos e instintos direcionado para os veículos, como representantes de romper regras. Aqui o tabu é definido como algo sagrado e, ao mesmo tempo, profano. Sabe que não pode transgredir as regras, mas faz por desejo de satisfazer suas necessidades íntimas mal resolvidas. 

Então como podemos observar em qualquer grupo social que estamos inseridos há necessidade de seguir regras e normas de condutas. Cada família, por exemplo, criam suas regras peculiares para o funcionamento daquele grupo, mas mesmo com suas particularidades, elas precisam ser regidas por leis gerais, comuns a todos. É o que acontece no trânsito onde cada individuo vem carregando em sua bagagem histórica, emoções, personalidade, percepção de mundo, traumas pessoais e ao se transformarem em condutores  ficam expostos a excesso de estímulo, aflorando cada vez mais o lado sagrado e profano de cada condutor. Por isso, precisamos ser guiados por leis, comum a todos para o bom funcionamento no ambiente do trânsito.

Desde crianças somos orientados do que é certo e errado, e que nossas atitudes errôneas podem levar a consequências graves para o grupo em que estamos envolvidos. Quando iniciamos o processo de aquisição da permissão para dirigir, seguimos todo um roteiro que nos mostra o que pode e não pode como condutor, suas conseqüências e as gravidades das ações. Apesar de ter toda a instrução necessária, conscientemente esquecemos até o bom senso para se portar no trânsito. 

E o que tem a ver o sagrado e profano afinal com o trânsito? Se paramos para avaliar a todo momento temos atitudes sagradas, seguindo tudo que é correto e em outros momentos também somos profanos quando descumprimos as leis que nos norteiam, e o pior de forma consciente. Por isso precisamos no trânsito o tabu (a Lei) representado pelo CTB e pelo Totem (a representação física da lei) na figura dos órgãos de trânsito.

Configura-se então, que somos indivíduos, no caso condutores neuróticos, não conseguimos nos adaptarmos ao que é proposto para uma boa convivência social no trânsito, seguimos ainda instintos primitivos, quase embrutecidos, porque ainda carregamos embutido no nosso comportamento a competitividade, vendo no outro condutor um adversário e não um aliado para a boa dinâmica do trânsito, pois viver essa realidade é bem complexa.

MELISA PEREIRA - Psicóloga Clínica, Organizacional e Trânsito.

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